quinta-feira, 8 de novembro de 2007

a poesia está perdida

A poesia está perdida para sempre.
A poesia perdida vaga confusa e incerta em lágrimas sensíveis e frágeis. Inúteis. Franzinas. Fúteis. A poesia fugidia espera em desespero ser chamada, clamada, lembrada. Aguardante, solicita, aguardente entre dentes agudos prontos para mastigar consciências compradas, comparadas, compensadas, rameiras de porta de bar. Dignas e vendidas.
A poesia é festa e raiva. Rumina, baba pelos cantos da boca, indigesta, nua e humilhada. Fulmina com o olhar seus algozes, carrascos ridículos e burros.
A poesia perdida, derrotada, esquecida, rejeitada não pede passagem, mas quer abrir seu caminho à foice, à força. Arrombar o caminho, rasgar a névoa, avermelhar a paisagem, acordar os anjos rebeldes, chamar aos gritos, clamar aos berros gnomos e duendes - seres da natureza, expelir odores de medo, rechear os peitos de agonizante suspiro derradeiro e salvador. Alterar veias dos pescoços ao vômito amargo de indignação e votos de justiça.
Essa coisa inútil, parda, branca, negra e de todas as cores quer, morrendo, viver e fazer viver. Ato único. Ato último. Grande ator e atriz em cena trágica, humorada, obscena, dramática, e enfim, aos prantos, adormecer.

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2 comentários:

Vinícius Silva disse...

Faz tempo que não leio algo tão próximo do que pode ser a dor/amor de fazer poesia. Esse texto demonstra que se naquele exato momento vc não escrever no papel, ou de front à telinha morta, aquelas determinadas e somente possíveis palavras daquele último segundo... você vai morrer, literalmente.

E depois de ler esse seu texto... me deu uma vontade danada de fazer poesia e de... chorar.

Besos.

pirilampia disse...

[snif...] eu também! obrigado...
beijo!